texto de
Hernani Magalhães
da Direcção Nacional do CPPC
 
Para aqueles que costumam ridicularizar as “coincidências” e os “encadeamentos” assinalados, emitindo doutos pareceres com um sorriso nos lábios, enquanto falam dos “excêntricos” adeptos das teorias da conspiração, a frase que serve de titulo foi dita pelo Rei Abbdallah, conhecido ditador da Arábia Saudita, pais que é o principal financiador da Liga Árabe. Mas poderíamos trazer à luz do dia as declarações de inúmeros altos funcionários norte-americanos que, desde a derrocada do Shah Rezâ Pahlavi tem tido como objetivo central da sua atuação, a substituição do governo iraniano por outro da sua confiança (2009, The Brooking Institution, “Witch Path to Persia? Options for a new americam stategy toward Iran, de Kenneth Pollack/NSA, Bruce Riedel/CIA, etc. entre muitos outros!).


Os esforços que o imperialismo norte-americano tem vindo a fazer desde há décadas para tornar toda a zona do Médio Oriente, uma das principais zonas de reservas petrolíferas e de gás natural do planeta, uma coutada dirigida por governos por si comandados, e que se traduziu desde a deposição violenta do governo eleito do Irão e sua substituição pelo Shah Rezã Pahlavi, passando pelas intromissões no Afeganistão, nos sucessivos golpes militares no Paquistão, no fomento de lutas tribais, na invasão do Iraque, quase sempre com a conivência de dirigentes monárquicos árabes da Arábia Saudita, do Qatar e demais emiratos, e pelo suporte sistemático ao regime de apartheid colonialista de Israel, o qual à sua conta tem inúmeras invasões dos países vizinhos, passa hoje pela destruição da Síria, fomentando revoltas armadas através de agentes externos e internos, armados diretamente por si, pelos sucedâneos neocolonialistas europeus da EU e pelos “amigos” que possui na zona, desde a Turquia, passando por Israel, pelo Qatar e pela própria Arábia Saudita, grupos esses hoje conhecidamente enquadrados e treinados por agentes do MI6 e por forças militares especiais do Reino Unido, a UKSF, enquanto que a CIA garante os meios de comunicação, de acordo com informações veiculadas pela imprensa britânica. De facto, a NATO criou e sustenta uma força paramilitar que tenta a todo o custo criar uma situação de caos humanitário na Síria, similar à situação que criou na Líbia, de forma a permitir perante a opinião pública mundial o ataque aberto das suas forças, a começar pelas forças norte-americanas estacionadas na Base Aérea de Incirlik, na Turquia, junto à fronteira síria, os 15.000 soldados estacionados no Kowait e os 9.000 soldados recentemente desembarcados em Israel, para não falar nas forças armadas da Turquia, inseridas na NATO, nas forças armadas da Arábia Saudita com as suas centenas de meios aéreos de última geração e do Qatar, estas já com a experiência recentíssima da participação aberta na guerra na Líbia e nas próprias forças israelitas.
Mas, enganam-se aqueles que pensam estar-se perante mais um “regime”, nome que o Império utiliza para designar aqueles que não são seus servos, selvático, que despreza a vida humana e que merece ser destruídos. A Síria nada mais é do que mais um peão a abater na luta que o imperialismo norte-americano trava pela manutenção da hegemonia unipolar planetária. Perante o atual quadro geoestratégico planetário, o imperialismo norte-americano, secundado pelos regimes servos e pelo sub-imperialismo europeu, tudo fazem para evitar a criação de um multimultipolar. A existência de uma República Popular da China, com a sua pujança económica, de uma Rússia que não se rende, do aparecimento de vários outros países, com um alinhamento independente e recusando o papel de serventuários do império tais como o Brasil ou a India, está a arrasar os “nervos” do colosso militar. Com um orçamento para 2012, o maior de sempre, no valor de 926,31 biliões de dólares, sendo mesmo incomensuravelmente maior que o somatório do conjunto dos 10 países que se lhe seguem em despesas militares, o prémio Nobel da Paz, Barack Obama, demonstra que em nada difere na essência do anterior presidente George W. Bush. Não difere nos conceitos agressivos de imposição do imperialismo norte-americano, à custa do sangue inocente dos Povos, não difere na defesa que faz do complexo industrial-militar americano, tudo pela causa da manutenção do férreo controlo sobre as fontes de energia, agora que se vê cada vez mais perto o fim do petróleo e da civilização por ele sustentada.
De facto, o que o império quer é acesso totalmente franqueado às matérias primas, como forma de domínio económico planetário, seja o petróleo do médio Oriente, seja o nóbio na Africa Central, os Povos não passam de carne para canhão, a usar sempre que dá jeito para opinião publica consumir.
Mas, voltemos à Síria. Porque não fala a comunicação social imperial dum recente inquérito, organizado pelo “YouGov” e cujos resultados foram tornados públicos pela “Qatar Foundation”, em que 55% dos sírios querem que Assad permaneça no poder e 68% critica as sanções impostas ao país? Quando as Nações Unidas falam no nº. de mortos provocados pela repressão, porque é que dizem num sítio que são mais de 4.000 e noutro de apenas 850? Porque é que a comunicação imperial não fala claramente nas ações armadas dos infiltrados, limitando-se ao já vago “alegados”, como se desconhecesse propositadamente a sua existência e ação? Porque é necessário criar uma situação de comoção internacional que dê suporte político a uma intervenção unilateral da NATO e demais serventuários do império! Já agora, talvez seja boa ideia lembrar que o Líbano está mesmo ali ao lado e que o Hezbollah, força nacionalista libanesa que derrotou a última invasão sionista, é sempre um dos alvos do Império
Seria bom que os nossos apoiantes das “guerras humanitárias” estudassem a história, aprendessem com o passado, até com o passado recente, como foi o caso da Líbia. De uma situação de exclusão aérea à intervenção militar aberta, com as forças da NATO e QATAR a fazerem a limpeza do território com a eliminação do exército líbio e os “revoltosos” a aparecerem a dar a cara à comunicação social engajada na agressão. E o Povo? O Povo que se lixe, que é hoje como sempre foi apenas carne para canhão! O que interessam os civis mortos pelos bombardeamentos da NATO? Nada! O que interessa o Direito Internacional? Nada! Só quando puder ser utilizado a favor do império e seus serventuários, melhor dito! Ou se lembrassem da resposta da antiga Secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright, quando afirmou justificar-se o assassínio de meio milhão de crianças iraquianas …. (entrevista ao programa 60 minutes, por Lesley Stahl).
Se os nossos apoiantes das “guerras humanitárias” estão de peito aberto, então compreendam que nem sempre o visível é o que realmente acontece! E não se deixem cair na fácil propaganda caritativa de que “só lá vamos para acabar com o assassínio de civis”. Será bom lembrar que nunca potência alguma fez uma guerra que não fosse para daí retirar dividendos, seja em território, em matérias primas ou apenas em poder!
A questão nuclear e o Irão
Poucos serão os que sabem que o primeiro reator nuclear a ser instalado no Irão data de 1967, altura em que o então presidente dos USA ao abrigo de um programa chamado “Átomos pela paz” “permitiu” que o seu senventuário Shah Rezâ Pahlavi adquirisse um reator nuclear. Nos anos setenta, ainda debaixo de Shah Rezâ Pahlavi, o Irão estava a construir dois novos reatores, pois tal dirigente sabia bem que o petróleo não iria durar para sempre e que a eletricidade seria um bem de primeira necessidade como é de facto, lá como cá, em Portugal. O que aconteceu depois, já é do conhecimento. Tal serventuário, o déspota local foi varrido pela revolta popular. Quanto aos reatores nucleares, eles foram sempre o que foram e são, “máquinas” para produzir energia elétrica!
As várias autoridades norte-americanas têm sido ao longo do tempo muito claras, que o Irão não estava e não está interessado em construir armas nucleares – Leon Panetta, os peritos referem nas Estimativas Da Inteligência Nacional (NIE no original) afirmam o mesmo, as várias idas aos diversos locais dos peritos da Agência Internacional da Energia Atómica afirmam nunca ter encontrado quaisquer resquícios de indícios de que o Irão esteja a utilizar tais equipamentos para desenvolver armas nucleares, mais, quando o irão estabeleceu um acordo com o Brasil e a Turquia, em que estes países iriam fornecer o urânio enriquecido que as centrais nucleares iranianas necessitavam, os USA boicotaram tal acordo, provando que afinal o problema com o Irão nada tem a ver com a questão nuclear, eles apenas querem mudar o governo iraniano e colocarem no poder “amigos” que lhes garantam o total acesso ao petróleo e ao gás natural iraniano e, talvez o fator mais decisivo, que o Irão deixe de fornecer tais fontes de energia à República Popular da China, que necessita delas para o seu desenvolvimento como de “pão p’rá boca”. E, convirá não esquecer que muitos dos “BRIC’S” já não estão a comprar e a vender quer em dólares, quer em euros, como são os casos do comércio entre Rússia e China ou entre o Irão e a China e o Japão! E o que tal significa no contexto da guerra económica que se trava nos bastidores mundiais!
Eis pois o quadro em que se inserem tais lutas geoestratégicas, com o Império a ser capaz de tudo fazer para não perder a supremacia militar que detém, mesmo a lançar-se numa nova aventura que poderá terminar numa guerra de dimensões planetárias. A nós, cidadãos, cabe alertar, informar e mobilizar os cidadãos contra tais ventos de guerra, baseando-nos na nossa Lei Fundamental, a Constituição da República, apelando e exigindo nas ruas e em todos os fóruns o direito de cada Povo a decidir sobre o seu próprio destino, sem intervenções externas, num espirito de livre cooperação e respeito internacional pela soberania de cada País!
 
25 de Janeiro de 2012